domingo, 6 de maio de 2012

Cachoeira de corruptos

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Desde os tempos da antiga Roma, "à mulher de César não basta ser honesta; tem que parecer honesta". Transposta para a política atual, significa que os detentores do poder, além de serem honestos, precisariam agir da mesma forma, externando continuamente aos cidadãos essa honestidade. Infelizmente, porém, a realidade dos fatos cada vez mais desestimula qualquer crédito de confiança que o eleitor brasileiro possa dar aos seus políticos. Agora mesmo uma CPMI, formada por parlamentares governistas e da oposição, tenta investigar a complexa rede montada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira, nas entranhas da administração federal, estendendo seus tentáculos pelos mais importantes níveis governamentais. Pessoas que apenas pareciam ser vestais da moralidade, como o senador Demóstenes Torres, de Goiás, foram flagradas em negociatas com Cachoeira, assim como outros políticos de nomeada daquele Estado e de outras unidades federativas. A comissão também esquadrinhará os elos de Cachoeira com a Delta Construções, vencedora de inúmeras licitações promovidas pelo governo federal e que financiava campanhas eleitorais notadamente em Goiás, onde a organização criminosa do bicheiro detinha sua maior área de influência. Até mesmo o governador do Estado, Marconi Perillo, teve seu nome citado nas investigações da Operação Monte Carlo, da PF, por supostas relações com Cachoeira. Espero que algo de bom saia dos trabalhos dessa CPMI, pois todos nós, como cidadãos, já estamos fartos de tanta ignomínia, de tanta impunidade. Diria, até, de tanta barbaridade praticada por homens que, no poder, só pensam em burlar as leis em proveito próprio. Os atos dessa cachoeira de corruptos precisam vir a lume. Esses bandidos de colarinho branco, que usurpam as verbas públicas e estão aí, espalhados por ministérios, pelo Congresso, Estados e prefeituras, devem ser desmascarados e punidos, com leis que de fato ponham termo a tantos crimes. O Brasil da honestidade e da seriedade clama por leis que punam os que banqueteiam do poder em detrimento do povo carente e abandonado. É chegado o momento. Que se faça, enfim, justiça!


Fonte : Diário do Nordeste

Dos cães aos homens

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INOVADOR Carnevale na  sala do Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde faz a embolização das artérias da próstata. “O próximo passo é testá-la em  mais pacientes” (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)
No começo, eram seis cachorros. Vira-latas, cerca de 30 quilos cada um. Todos tinham a próstata naturalmente aumentada, resultado de uma doença característica do envelhecimento. Cada cão era anestesiado, entubado e conduzido de maca pelos corredores de um hospital da Universidade Harvard. No comando das rodinhas, na primavera de 2007, estava o radiologista Francisco Carnevale, nascido e crescido no bairro da Casa Verde, na Zona Norte de São Paulo.
O que o levou do Hospital das Clínicas, na capital paulista, a Boston, nos Estados Unidos, foi uma pergunta teimosa. Daquelas que funcionam como poderoso estimulante. Seria possível aliviar, sem cirurgia, sintomas que causam dor e constrangimento a tantos homens?
A partir dos 45 anos, muitos começam a sofrer de crescimento da próstata. É uma doença benigna, diferente do câncer. A glândula aumenta por razões hormonais, comprime a uretra e obstrui o fluxo de urina. No jargão médico, é chamada de hiperplasia prostática benigna (HPB). Aos 60 anos, um quarto dos homens tem a doença. Aos 80, metade enfrenta sintomas que variam entre desagradáveis e incapacitantes. Jato urinário fraco, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, aumento da frequência urinária, perdas involuntárias de urina...
Em 75% dos casos, o tratamento é feito apenas com remédios. Quando eles não funcionam, a solução é cirúrgica. A técnica mais usada é uma intervenção conhecida como ressecção transuretral prostática (RTU) (leia o quadro abaixo). Carnevale queria entender se seria possível fazer diferente. Só saberia se cuidasse bem daqueles cachorros. Com muita atenção e guiado por imagens de raios X, introduzia um tubo plástico fininho (de 1 milímetro de diâmetro) na artéria da virilha dos cães. Por esse caminho, chegava às artérias da próstata. Ali, aplicava minúsculas bolinhas de resina. Minúsculas mesmo. Cada esfera media de 300 a 500 micras (1 mícron mede 1 milésimo de 1 milímetro). O resultado foi animador: o tamanho da próstata dos animais diminuiu cerca de 40%.
Em homens ocorreria o mesmo? Provavelmente sim. Em 2006, Carnevale lera um relato de caso interessante numa revista científica. Durante uma cirurgia tradicional de próstata, um paciente começara a sangrar. Um radiologista fora chamado para tentar estancar a hemorragia aplicando essas minúsculas bolinhas de resina nas artérias da próstata. O resultado foi inesperado. Além do sangramento ter sido interrompido, a próstata aumentada murchou. Nos meses seguintes, as dificuldades de controle da urina praticamente desapareceram.
A injeção de pequenas esferas plásticas para obstruir artérias ou vasos – um processo chamado de embolização – já era consagrada no tratamento de outros problemas, como os tumores benignos no útero (miomas). Assim que obteve a autorização do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas, Carnevale e uma equipe do Departamento de Urologia começaram a testar a estratégia em homens no estágio mais avançado da doença. Todos usavam sonda na uretra e estavam à espera da cirurgia convencional.
A mensagem
Para você
Uma nova técnica alivia o crescimento benigno da próstata sem cirurgia

Para o Brasil

É preciso ampliar os estudos para confirmar que ela é segura e tão eficaz quanto a cirurgia  
Dos 11 pacientes submetidos à nova técnica, dez melhoraram. Voltaram a urinar espontaneamente (sem sonda) alguns dias após o procedimento. Antes dele, todos diziam ter uma qualidade de vida péssima. Um mês depois, já estavam satisfeitos com os resultados. Um ano depois, estavam muito satisfeitos. O tamanho da próstata diminuiu, em média, 30%. Embora sejam preliminares, os resultados chamaram a atenção da comunidade científica internacional. O estudo foi considerado um dos dez melhores do Congresso Anual da Sociedade Internacional de Radiologia Intervencionista, realizado em março em San Francisco. Vários colegas estrangeiros já vieram ao Brasil aprender a técnica. Dois italianos, um francês, uma grega e nove americanos.
Um deles é James Spies, professor de radiologia intervencionista da Universidade Georgetown, em Washington. Ele é conhecido nos Estados Unidos por ter operado um mioma uterino da ex-secretária de Estado Condoleezza Rice. Spies ficou entusiasmado com o que viu no Brasil. “Carnevale está fazendo um grande trabalho. Acredito que essa técnica tem um grande potencial, mas ainda é preciso muito estudo para garantir que é segura e eficaz”, disse Spies a ÉPOCA. “Estou preparando um protocolo de pesquisa e espero conseguir repetir os resultados que ele obteve.”
Uma das grandes vantagens da embolização das artérias da próstata é ser realizada apenas com anestesia local. O paciente volta para casa no mesmo dia. Com a cirurgia tradicional, 90% dos homens voltam a urinar bem e continuam assim mesmo depois de dez anos. É um procedimento seguro, mas requer internação de até três dias. Outra vantagem da técnica de Carnevale é não comprometer a função sexual. A cirurgia convencional (RTU) não costuma provocar impotência, mas os pacientes passam a apresentar o que os médicos chamam de ejaculação retrógrada. O sêmen deixa de ser ejaculado naturalmente e, durante as relações sexuais, cai na bexiga. De lá, é expelido pela urina.
“Os homens não querem ficar com ejaculação retrógrada para resolver um problema urinário. Quando se submetem ao novo procedimento, me dizem que recuperaram a vontade de viver”, diz Carnevale. Além dos 11 voluntários do estudo original, outros pacientes particulares experimentaram a novidade. No total, já são cerca de 40.
A maioria dos homens tratados faz questão de levar a mulher ao consultório e dizer que a harmonia voltou ao lar. “Antes ela não podia dormir porque eu acordava várias vezes durante a noite para ir ao banheiro. Agora isso acabou”, diz o médico ginecologista Manoel Augusto Soares. “Três meses depois do procedimento, minha próstata diminuiu 40%. E a técnica não atrapalhou minha sexualidade.”
Otimismo não falta, mas, como em tudo em medicina, é preciso tempo. O grupo de pacientes submetidos à técnica é pequeno. Insuficiente para garantir o que quer que seja. “A embolização das artérias da próstata ainda é uma técnica experimental, não reconhecida pela comunidade dos urologistas. Precisamos de mais estudos antes de indicá-la à população”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, Aguinaldo Cesar Nardi.
Reprodução (Foto: Reprodução)
A nova técnica não é isenta de riscos. Se as microesferas não forem aplicadas adequadamente (com material correto, na quantidade e na velocidade certas), os vasos dos órgãos próximos da próstata podem ser afetados. Isso pode prejudicar a circulação sanguínea na bexiga, no reto e no pênis. Numa situa­ção extrema, isso pode provocar a morte do tecido atingido (necrose). 
Carnevale sabe que tem um longo caminho pela frente antes de sua invenção ganhar credibilidade. “Precisamos da chancela dos urologistas para que ela comece a ser recomendada habitualmente”, diz. O professor aposentado Carlos Nilson da Costa, de 70 anos, decidiu correr o risco de ser um dos primeiros a se submeter à novidade. Ex-secretário de Educação do Amapá, ele viveu um episódio dramático no final do ano passado. Durante um voo entre Macapá e São Paulo, não conseguiu esvaziar a bexiga. Precisou ser socorrido assim que chegou ao Aeroporto de Congonhas. Uma sonda foi colocada na uretra até que ele pudesse ser submetido à embolização. “Hoje estou 75% melhor. É bastante.”
Desde que o Viagra amenizou a ameaça da impotência, a próstata ocupou o espaço de maior preocupação de saúde no campo da intimidade masculina. Surgiu uma nova esperança – que precisa ser comprovada por diferentes grupos. Se funcionar, terá sido obra de uma rede de inquietos a serviço da ciência. A começar pelos vira-latas.

Fonte : Época
 
Pires Ferreira © 2012 .